Emilia Pérez, o filme mais polêmico desta temporada de premiações, estreou nos cinemas brasileiros na semana passada. Aqui vão todas as minhas impressões sobre ele!
Quero começar esclarecendo que acredito que a arte não depende do artista para existir. Claro que, conhecendo o contexto e as motivações do criador, o significado e a interpretação da obra podem mudar, mas toda obra deveria se sustentar sozinha. Dito isso, vou dividir esta crítica entre minha opinião sobre o filme em si, desconsiderando as circunstâncias da produção, depois, abordar o contexto por trás dele.
Qual é a história do filme?
O longa conta a história de Manitas del Monte (Karla Sofia Gascón), um dos principais chefes do narcotráfico no México, que pede — ou melhor, obriga — a advogada Rita (Zoe Saldaña) a ajudá-lo a fazer sua transição de gênero para se tornar quem sempre quis ser. Para realizar os procedimentos, Manitas envia sua esposa, Jessi (Selena Gomez), e seus dois filhos para a Suíça, simula sua própria morte no México e faz a cirurgia em outro país, tudo com o auxílio de Rita.
Quatro anos depois, Manitas, agora Emilia Pérez, volta a procurar a advogada e, mais uma vez a forçando, exige retornar ao México para rever sua esposa e filhos. Ao reencontrá-los, Emilia se apresenta como prima de Manitas e assume o papel de cuidadora da família. Além disso, ao lado de Rita, ela decide criar uma ONG para encontrar pessoas desaparecidas no México por causa do narcotráfico.
A história vai além disso, mas não quero dar muitos spoilers.

Quais são os problemas do filme?
Primeiramente, Emilia Pérez é um musical! Considerando que o filme trata de temas extremamente sérios, como violência, narcotráfico, desaparecidos e transição de gênero, a escolha do formato musical não se encaixa bem. As músicas funcionam apenas como diálogos cantados, com letras redundantes e vazias (um exemplo disso é a canção que repete “eu sinto um sentimento”). Além disso, são músicas sem apelo, que não despertam vontade de aprender as letras, cantar junto ou ouvir fora do filme. Eu, particularmente, adoro musicais e costumo ouvir trilhas sonoras do gênero no meu dia a dia. Então, se um musical não consegue cumprir essa função, para mim ele falhou.
Outro problema é que, embora Emilia Pérez seja a protagonista — afinal, o filme leva seu nome —, ela tem menos tempo de tela do que Rita, que deveria ser coadjuvante. Além disso, Emilia quase não canta! Mesmo não me agradando a escolha de fazer o filme musical, uma vez que essa é a proposta, era de se esperar que a protagonista tivesse mais números musicais. E do pouco que canta, fica evidente que Karla Sofia Gascón não tem habilidades vocais. Há até rumores de que foi necessário o uso de Inteligência Artificial para “aumentar seu alcance vocal”. Agora me diz: se o filme é um musical, o mínimo que se espera não é que a protagonista saiba cantar?
Quanto ao elenco, a escolha de Selena Gomez também foi um erro. Apesar de ter ascendência mexicana, seu espanhol não é fluente, sendo o mais difícil de compreender durante o filme. Isso resultou em mudanças nas características da personagem no roteiro final para se adequar à atriz. Provavelmente por não estar confortável com a língua e, suspeito eu, nem entender totalmente o que estava falando, sua atuação deixa muito a desejar.
Outro grande problema é a quantidade de temas abordados sem aprofundamento. O filme tenta falar sobre transição de gênero, narcotráfico, desaparecidos no México, a vida de Rita e Jessi, mas não se aprofunda em nada. No final, fiquei sem entender qual era a mensagem principal da história — e a que consegui captar beira o absurdo. A transição de gênero de Emilia, por exemplo, acontece quase que da noite para o dia, sem mostrar os desafios emocionais e físicos que acompanham esse processo. O narcotráfico e seus impactos são abordados de maneira superficial, sem mostrar como isso realmente afeta a sociedade mexicana. Até mesmo as histórias de Rita e Jessi são deixadas de lado; houve momentos em que me perguntei se o filme tinha esquecido da existência de Jessi, já que ela passa longos períodos sem aparecer.
Além disso, muitos enquadramentos, ângulos e movimentos de câmera parecem amadores, incompatíveis com o escopo e o orçamento do filme. Ele tem uma fotografia escura, com alto contraste, e, claro, o já esperado filtro laranja nas cenas que se passam no México.

O filme tem pontos positivos?
Poucos, mas sim! O principal deles é, sem dúvidas, Zoe Saldaña. Ela é uma atriz fantástica e entrega uma performance muito boa, ainda mais quando comparada às atuações de Gascón e Gomez. Definitivamente, esse é o principal trunfo do filme e o foco de toda sua estratégia de marketing.
Um pouco sobre sua produção
Emilia Pérez foi escrito e dirigido pelo francês Jacques Audiard e produzido pela Saint Laurent Productions, sendo o primeiro filme da marca. Nos EUA, a distribuição ficou por conta da Netflix. A maior parte das gravações ocorreu na França, no estúdio Bry-Sur-Marne, entre janeiro e março de 2023, com um orçamento de aproximadamente US$ 24 milhões. A trilha sonora foi composta por Clément Ducol e as músicas por Camille Dalmais, cantora e compositora francesa. O elenco principal conta com Karla Sofia Gascón (atriz espanhola), Selena Gomez e Zoe Saldaña. Gomez, apesar de americana, tem avós paternos mexicanos, enquanto Saldaña, nascida nos EUA, passou parte da infância na República Dominicana.
Levando a produção em consideração, dificilmente o resultado final daria certo. O filme foi dirigido por um francês que não fala inglês nem espanhol, com um elenco e equipe sem mexicanos, músicas compostas por uma francesa e nenhuma cena gravada no México. Audiard chegou a afirmar, em uma entrevista, que não pesquisou sobre a cultura mexicana ao escrever o roteiro. O resultado disso foi um filme cheio de estereótipos que perpetua uma visão eurocêntrica da América Latina. Para o público americano e europeu, talvez pareça uma representação fiel do México — e isso fica evidente na quantidade de prêmios e indicações que o filme recebeu.
O filme estreou na França em 21 de agosto de 2024 e, até o momento, arrecadou menos de US$ 15 milhões em bilheteria. Nos Estados Unidos, sequer entrou em cartaz nos cinemas, indo direto para o catálogo da Netflix.
Referências
https://www.adorocinema.com/filmes/filme-304508/
https://www.boxofficemojo.com/title/tt20221436/?ref_=bo_se_r_1
