Se você é brasileiro, com certeza já ouviu falar desse filme, então dispensa uma introdução muito extensa. “Ainda Estou Aqui” é uma adaptação do livro homônimo escrito por Marcelo Rubens Paiva e conta a história de sua família durante a ditadura militar. O enredo acompanha o desaparecimento de Rubens Paiva (Selton Mello), levado pela polícia militar para – supostamente – depor e que nunca mais retorna para casa. Paralelamente, mostra como Eunice Paiva (Fernanda Torres), sua esposa, consegue cuidar dos cinco filhos e, de uma certa forma, seguir a vida.

O filme ganhou bastante repercussão no Festival de Veneza, onde Fernanda Torres foi ovacionada por 14 minutos – mais tempo do que grandes estrelas de Hollywood como Angelina Jolie, por Maria, e Nicole Kidman, por Babygirl. Além disso, vem enchendo salas de cinema, não apenas no Brasil – que já é surpreendente, considerando que os brasileiros não têm a cultura de assistir filmes nacionais -, mas também ao redor do mundo. A grande pergunta é: ele tem chances de ganhar o Oscar?

É realmente extraordinário?

O filme tem mexido com o público por abordar um tema delicado e, apesar de se passar no passado, traz assuntos atemporais ou que estão ganhando força nos últimos tempos, e Fernanda Torres consegue criar uma conexão com o espectador, gerando proximidade e fazendo com que a gente se sinta parte da história. Apesar de ter uma narrativa muito bem construída, um elenco sensacional e uma fotografia belíssima – afinal, o Rio de Janeiro é lindo -, o filme, na minha opinião, não é tudo isso. Pode ser pelo fato de eu ser brasileira, por se tratar de uma história real ou por já ter assistido muitos filmes, mas o enredo de “Ainda Estou Aqui” é previsível e não conseguiu construir, pelo menos para mim, uma tensão genuína, apesar da dor e resiliência da protagonista que é muito bem interpretada e transmitida.

De fato, é impressionante como Eunice Paiva lidou com a situação, mas sua história não é exatamente uma exceção à regra. Não é aquele tipo de trama que faz você pensar “não é possível que isso realmente aconteceu”, como, por exemplo, senti ao assistir a série do Ayrton Senna, lançada recentemente pela Netflix. Em diversos momentos, eu pensava: “isso deve ser ficção, não é possível que alguém tenha sido tão excepcional assim na vida real”.

Por esses motivos, considero “Ainda Estou Aqui” um bom filme, mas seu maior trunfo não é a história em si, e sim a atuação do elenco com destaque, claro, para Fernanda Torres. Como alguém que acompanha produções audiovisuais brasileiras desde a infância, incluindo novelas, assisti todas as temporadas de “Tapas e Beijos”, “Os Normais” e outros trabalhos da atriz e, sem dúvidas, de todos os trabalhos que eu já vi dela, neste filme ela entregou a melhor atuação da usa carreira. É impressionante a quantidade de emoções que ela consegue transmitir apenas com o olhar. Ela é realmente cativante, envolvente e constrói, com muito êxito, diversas camadas e profundidade para a personagem, criando uma conexão verdadeira com o público.

Ele tem problemas?

O filme é muito bem construído e tem uma narrativa sólida, mas algumas cenas são longas demais. Em vários momentos, metade da duração seria suficiente para transmitir a mensagem desejada. Claro que algumas cenas são propositalmente extensas para causar incômodo, mas acho que houve um certo exagero na escolha de quais cenas deveriam ser alongadas e quais poderiam ser encurtadas. Outra questão é que, em alguns momentos, tive dificuldade em compreender as passagens temporais de uma cena para outra. Há cortes que avançam apenas alguns dias, enquanto outros abrangem semanas ou meses – até agora não sei dizer quanto tempo Vera (a filha mais velha do casal) ficou em Londres. Esse aspecto poderia ter sido melhor trabalhado para garantir uma maior clareza narrativa.

Quais são as chances no Oscar?

O filme está indicado a três categorias:

  1. Melhor Atriz (Fernanda Torres)
  2. Melhor Filme de Língua Não Inglesa
  3. Melhor Filme

Nas categorias de Melhor Atriz, as principais concorrentes de Fernanda Torres são Demi Moore, por “A Substância” – que ganhou o Globo de Ouro, Critics Choice e SAG Awards – e Mikey Madison, que venceu o BAFTA e o Film Independent Spirit Awards. Premiações as quais Fernanda Torres nem sequer foi indicada. No entanto, alguns jornais americanos divulgaram relatos anônimos de membros da Academia, indicando que os votantes estão bem divididos entre Moore e Torres, o que nos dá alguma esperança.

Para Melhor Filme de Língua Não Inglesa, a situação é mais complicada. “Ainda Estou Aqui” perdeu para “Emilia Pérez” em todas as premiações anteriores, incluindo Globo de Ouro, Critics Choice e BAFTA. Por outro lado, as polêmicas envolvendo “Emilia Pérez” e a atriz Karla Sofía Gascón podem afetar a votação. Já para Melhor Filme, as chances são ainda menores, pois “Ainda Estou Aqui” não foi indicado nessa categoria em nenhuma outra premiação e concorre com filmes de língua inglesa, que tradicionalmente têm mais peso no Oscar.

Como o Oscar é a última premiação da temporada, podemos ter uma ideia dos favoritos com base nas premiações anteriores. Os filmes mais fortes para levar a estatueta de Melhor Filme são:

  • “Conclave” (vencedor do BAFTA)
  • “Anora” (vencedor do Critics Choice e PGA)
  • “O Brutalista” (vencedor do Globo de Ouro)

Vale lembrar que o grupo de votantes do Oscar não é o mesmo das demais premiações. Embora os prêmios anteriores sirvam como um termômetro, não são necessariamente uma previsão definitiva dos vencedores.

Um pouco sobre a produção

Entre a concepção inicial do filme e seu lançamento, foram sete anos de produção, conforme mencionado pelo diretor e produtor Walter Salles em uma entrevista. O orçamento do filme não foi divulgado oficialmente, mas Rodrigo Teixeira, um dos produtores, afirmou em um podcast recente que ele não custou US$1,5 milhão (R$8,8 milhões), como vem sendo noticiado.

As gravações ocorreram em diversas locações no Rio de Janeiro entre junho e setembro de 2023, e a estreia mundial aconteceu no Festival de Veneza, em 7 de setembro, onde “Ainda Estou Aqui” ganhou o prêmio de Melhor Roteiro.

O filme vem batendo recordes de bilheteria tanto no Brasil quanto no exterior. Já ultrapassou os R$100 milhões na bilheteria global e continua em cartaz em diversos países, incluindo o Brasil.

Agora, resta aguardar e ver como “Ainda Estou Aqui” se sairá na grande noite do Oscar!

Referências

https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2024/09/07/filme-brasileiro-ainda-estou-aqui-ganha-premio-de-melhor-roteiro-no-festival-de-veneza.ghtml?utm_source=chatgpt.com

https://www.estadao.com.br/cultura/cinema/ainda-estou-aqui-nao-custou-us-135-milhao-diz-produtor-nao-e-magica/

https://exame.com/pop/com-5-milhoes-de-espectadores-ainda-estou-aqui-passa-dos-r-100-milhoes-em-bilheteria/

https://www.adorocinema.com/filmes/filme-265940/