Filme independente, de baixíssimo orçamento e que foi feito num software de edição de vídeo gratuito — Blender — ganhou o Oscar de melhor animação, superando grandes produções como Divertida Mente 2, O Robô Selvagem e Wallace & Gromit: Avengança, e garantindo à Letônia sua primeira estatueta — também sua primeira indicação. O filme também foi indicado a melhor filme internacional, concorrendo com o filme brasileiro Ainda Estou Aqui.

A história gira em torno exclusivamente de animais, que — diferentemente da grande maioria dos filmes — se comportam como animais, sem racional humano e, consequentemente, sem falas.

O filme prende a sua atenção

Apesar de não ser a melhor animação do mundo, em termos de qualidade, ela é um produto impressionante para o orçamento e o software utilizado para fazê-lo. É visualmente lindo e cativante. É uma produção belíssima, que acompanha a história de um gato preto que, diante de uma crise repentina, se vê obrigado a trabalhar em conjunto com outros animais que, em outras circunstâncias, o perseguiriam, para sobreviver e lidar com a adversidade.

Com uma fotografia de tirar o fôlego, o filme conseguiu transmitir da forma mais universal possível sua mensagem. Com personagens genéricos/universais, mostra o poder do trabalho em equipe e da amizade — sim, clichê, mas é a mensagem do filme. Os personagens que compõem a história, além do gato preto, são um lêmure, uma garça, uma capivara e um cachorro (golden retriever), cada um cativante da sua própria maneira e com sua própria simbologia.

Na minha sessão tinha várias crianças, e mesmo sem falas, elas prestaram atenção do começo ao fim, além de se envolverem genuinamente com a história e os personagens. Isso só evidencia ainda mais a beleza do trabalho feito. A equipe conseguiu contar uma história que, apesar de não ser muito original, foi narrada de uma maneira envolvente e universal, de modo que, independentemente da idade, da cultura e da língua, qualquer pessoa consegue assistir e entender integralmente a mensagem do filme.

O enredo do filme é fraco

O meu maior problema com esse filme foi o enredo, que de fato me decepcionou. Ele retrata, da maneira mais pura possível, a jornada do herói. O protagonista começa o filme em sua zona de conforto, aparece uma crise que faz com que ele tenha que sair da sua rotina, durante a trajetória ele faz amigos: geralmente um que começa como um leve inimigo e depois se torna o melhor amigo, um que entra na posição de líder, mais sábio e experiente, um que é o alívio cômico e um que acaba sendo mais preguiçoso, mas de bom coração. No meio da jornada, o protagonista passa por algumas provações e desafios que testam as amizades que foram criadas, a figura de líder morre e serve como exemplo e mártir. No final do filme, o protagonista resolve a crise e volta para seu ponto inicial, mas agora diferente de como ele começou e, quase sempre, com companhia. Essa é uma fórmula pronta de Hollywood e que, quase sempre, funciona, e nesse filme não foi diferente. Pra mim, o principal problema é que, em Flow, o gato preto, que é o protagonista, não faz nada para solucionar a crise. Na verdade, não tem nenhuma justificativa pra a crise: ela aparece e desaparece do nada.

Por esse motivo, eu não achei o filme extraordinário, mas ele não deixa de ser lindo e emocionante. O enredo do filme está longe de ser algo original, enquanto eu assistia, consegui pensar em uns vinte filmes diferentes que têm exatamente a mesma história, como, por exemplo, O Mágico de Oz, em que a Dorothy (protagonista) está em sua rotina na fazenda e vem um ciclone (crise) que a leva para Oz, onde ela tem que seguir a trilha amarela (jornada) para conseguir encontrar o mágico e voltar pra casa, fazendo amigos ao longo do caminho. Pra mim, os pontos fortes do filme são a universalidade com que construíram a história, da maneira mais crua e até mesmo primitiva (por se tratar de animais) possível, em conjunto com a estética do filme, que ficou linda, e o apelo do gato preto e dos outros personagens, que conquistam nosso coração, cada um a sua maneira.

Um pouco sobre a produção e a repercussão do filme na Letônia

Como falado antes, o filme foi feito integralmente no Blender, software gratuito de edição de vídeo e animação. Ele foi uma coprodução pública-privada, com investimento do governo da Letônia, e teve um orçamento de aproximadamente US$4 milhões, um contraste enorme com o orçamento estratosférico de seu concorrente no Oscar, Divertida Mente 2, de US$200 milhões.

O filme começou a ser produzido em 2019, foi dirigido e roteirizado por Gints Zilbalodis e contou com uma equipe de mais ou menos 20 pessoas. Teve seu lançamento no Festival de Cannes de 2024, batendo recordes de bilheteria para um filme de animação independente e para um filme letão, atingindo, até o momento, US$21,1 milhões. Além do Oscar, o filme também ganhou o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme de Animação.

A animação vem tendo uma repercussão incrível na Letônia, que construiu uma estátua do Gato no centro da capital, junto ao letreiro do nome da cidade, organizou uma exposição para falar sobre a produção do filme e expor a estatueta do Oscar e o Globo de Ouro, para que a população possa ver, e está gerando filas de horas! Além disso, o governo letão aumentou os investimentos em audiovisual no país, houve um crescimento significativo no número de gatos pretos adotados e gerou um aumento no turismo no país.

O filme ainda está em cartaz nos cinemas brasileiros e vale muito a pena conferir!

Referências

https://www.theguardian.com/film/2025/mar/09/animation-oscars-flow-memoir-of-a-snail-wander-to-wonder

https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/apos-sucesso-de-flow-letoes-demonstram-apoio-ao-filme-confira/

https://www.imdb.com/pt/title/tt4772188/

https://www.boxofficemojo.com/title/tt4772188/