O filme, anunciado em outubro de 2016, ficou cinco anos apenas na pré-produção — desenvolvimento do roteiro, escolha do elenco e construção dos sets —, além de ter sofrido atrasos devido à pandemia de COVID-19. Com uma longa pós-produção por causa da grande quantidade de efeitos computadorizados (CGI) e muitas polêmicas em torno da produção, ele finalmente chegou aos cinemas, quase nove anos depois.

O longa foi fortemente criticado após Rachel Zegler e Gal Gadot afirmarem em entrevistas que haveria grandes mudanças em relação ao filme original de 1937. Outra polêmica foi a decisão da Disney de criar os sete anões de forma 100% computadorizada, depois que o ator com nanismo Peter Dinklage criticou a ideia de contratar atores anões apenas por sua estatura, chamando isso de reforço a estereótipos retrógrados. Ainda teve a grande discussão na internet sobre a Gal Gadot ser muito mais bonita que a Rachel Zegler. E como se não bastasse, houve rumores de atritos entre as atrizes devido à guerra entre Israel e Palestina, já que Gadot é israelense e Zegler declarou apoio à Palestina.

Houve mudanças na história

Como Zegler já tinha antecipado, tiveram mudanças na história, mas que achei bem pertinentes e condizentes com o momento em que estamos agora. E não quero reclamações de que “não está igual ao original”, porque se for parar pra pensar, a animação da Disney de 1937 já não era fiel ao conto original dos irmãos Grimm. No conto, não é a madrasta e sim a própria mãe da Branca de Neve que tenta envenená-la não apenas uma, mas três vezes. Além disso, a princesa não acorda com um beijo de amor verdadeiro, mas sim porque as pessoas que carregavam seu caixão o deixaram cair, fazendo com que o pedaço de maçã preso em sua garganta saísse.

No live action, a Branca de Neve ainda tem um par romântico, mas não é um príncipe e o relacionamento deles tem um desenvolvimento muito maior. Outra mudança foi trocarem a música “Someday My Prince Will Come” (“Um Dia Meu Príncipe Virá”) por “Waiting on a Wish” (“Esperando por um Desejo”), que fala sobre ela querer se tornar a líder que seu pai sempre acreditou que ela seria, mostrando uma força maior da personagem. Meu receio era que, ao dar mais poder pra ela, pudessem deixá-la mais “masculina”, o que não me agradaria, já que acho a Branca de Neve uma das princesas mais delicadas da Disney. Mas, felizmente, mantiveram essa essência.

É um filme infantil e baseado em uma animação

Outra crítica que o filme recebeu foi em relação ao vestido da Branca de Neve e ao quão infantil e irreal estavam os cenários, os animais e as caracterizações. Mas, gente, no final do dia é um filme feito para crianças! E uma das escolhas criativas do estúdio foi justamente ser esteticamente fiel à animação de 1937. Muitas cenas têm características típicas de animação, como por exemplo a mudança repentina da cor do céu (bem claro e ensolarado vs bem escuro e nublado), a mudança nas cores das roupas dos camponeses (extremamente coloridas no reinado dos pais da Branca de Neve vs roupas apenas com cores neutras e sem vida no reinado da Rainha Má). Essa caracterização toda me passou um pouco a mesma energia de “descendentes”, o que não é ruim, dado que é um filme INFANTIL.

Agora, para além da caracterização em si, algumas falas me pareceram um pouco explícitas e redundantes, como a narração dizer “a rainha era má”. Achei desnecessário, mas entendo que o filme não foi feito pensando em mim, uma pessoa de 21 anos como público-alvo.

As músicas estão muito boas

As músicas foram compostas por Benj Pasek e Justin Paul, os mesmos de “La La Land”, “O Rei do Show” e “Aladdin”. A barra estava alta, mas não decepcionaram. Talvez nenhuma das novas canções vire um grande hit como “We Don’t Talk About Bruno” (Não Falamos do Bruno”) ou “Let it Go” (”Livre Estou”), mas são músicas gostosas de ouvir, e são músicas que eu me vejo ouvindo no carro, por exemplo. De qualquer forma eu adorei a releitura que eles fizeram de “Heigh Ho” (”Eu Vou”), cantada pelos sete anões e das músicas originais como “Waiting on a Wish” (”Um Desejo em Mim”).

Preciso exaltar a Rachel Zegler, que superou minhas expectativas tanto na atuação quanto no canto. Ela já tinha impressionado como Maria em “West Side Story” (2021) e como Lucy Gray em “Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes” (2023), e aqui não foi diferente.

Defeitos do filme

Apesar de ele ter me surpreendido muito o filme tem alguns problemas. Começando pelo mais óbvio, os sete anões são feitos com CGI, o que por um lado permite uma maior liberdade criativa, flexibilidade e maior proximidade estética e comportamental com a animação, por outro tira o trabalho de sete atores com nanismo, que já têm uma dificuldade maior de conseguir papéis nessa indústria. E sim, eu acredito que essa decisão foi tomada com influência da declaração do Dinklage, que foi contra contratar atores anões por serem anões, mas também acho que é fácil ele dizer isso quando ele é um ator com uma carreira muito bem consolidada do mercado, e não tem dificuldades de conseguir trabalhos. É a mesma coisa que contratar uma atriz trans por ela ser trans para interpretar um papel trans, e ninguém questiona isso, então acho que essa foi uma escolha errada da Disney, até porque tem um ator anão no filme, mas ele não é um dos sete anões, e sim um dos membros do grupo de rebeldes/bandidos, e em nenhum momento é questionado ou citado o fato de ele ser anão, gerando uma distinção muito clara entre os sete anões, que são de uma certa forma criaturas mágicas que trabalham nas minas e um anão humano. Resumindo, os personagens computadorizados não me agradaram, apesar de até achar o Dunga fofo e ter sido um CGI relativamente bom.

Agora, o que realmente mais me incomodou no filme foi a atuação da Gal Gadot! Nunca achei ela uma atriz extraordinária, e estou até agora tentando entender como ela ganhou uma estrela na Calçada da Fama em Los Angeles (semana passada inclusive), mas esse foi, de todos os filmes dela que eu já assisti, o seu pior trabalho. Convenhamos, o papel de Rainha Má não é inédito, já foi interpretado por várias atrizes, como a Julia Roberts em “Espelho, Espelho Meu” (2012), Charlize Theron em “A Branca de Neve e o Caçador” (2012) e Lana Parrilla em “Once Upon a Time” (2011 – 2017), e eu posso dizer que a atuação de Gadot não chega nem aos pés das atrizes citadas. Ela realmente foi insuficiente, não conseguindo incorporar a personagem nem falar as falas com propriedade e de maneira genuína. Sim, é fato que a Rainha Má é uma vilã superficial, que só se importa com estética, mas tem uma verdade e uma seriedade quando ela fala, que eu não consegui sentir na interpretação de Gadot.

Produção e escolhas criativas

Como dito antes, o longa levou quase nove anos para ser produzido, mas as filmagens em si ocorreram entre março e julho de 2022 no Pinewood Studios, no Reino Unido e, seguindo a tendência de Hollywood nos últimos anos de reduzir o uso de tela verde, a maioria dos cenários e paisagens são reais. O filme teve uma longa pós-produção devido, principalmente aos sete anões, que precisaram ser adicionados graficamente em todas as cenas, aumentando não apenas o tempo, mas também o custo da produção. O roteiro foi escrito por Erin Cressida Wilson (“A Garota no Trem”) e Greta Gerwig (“Barbie”), com direção de Marc Webb (“O Espetacular Homem-Aranha”). Já os efeitos especiais foram terceirizados e feitos pela empresa especializada em CGI britânica Moving Pictures Company.

Agora, uma dúvida que surgiu para mim, e pode ter surgido para você também: ter escolhido fazer os sete anões com CGI ao invés de contratar atores com nanismo foi mais barato? E a resposta é: provavelmente não, isso porque CGI ainda é uma tecnologia cara, se for de qualidade então, os custos são bem elevados e aumentam o tempo de pós-produção. Além disso, sete atores tiveram que ser contratado de qualquer forma para fazer a captura de movimento e as vozes, ou seja, no fundo a Disney economizou com figurino, maquiagem… mas gastou muito mais na edição. Essa decisão foi 100% corporativa, e como uma forma de “sair pela tangente”, eles fizeram uma distinção muito clara entre os sete anões, que são seres mágicos, como é visto na cena na mina, e um anão humano.

O filme não teve seu orçamento exato divulgado, mas a estimativa é que tenha custado entre US$250 e 300 milhões, o que não é tão fora do padrão para grandes produções da Disney como essa, e arrecadou quase US$90 milhões em bilheteria global em seu final de semana de estreia, que dessa vez sim é bem abaixo da média, quando comparado com outros live actions do estúdio, que tendem a alçar valores próximos a US$200 milhões.

No geral, o filme me surpreendeu positivamente, mas vale lembrar que ele é um filme infantil, e não uma obra-prima do Christopher Nolan.

Referências

https://www.imdb.com/pt/title/tt6208148/

https://youtu.be/E2zIkZxbAn4?si=L45FxHNtU3LLL_Ug

https://investnews.com.br/the-wall-street-journal/novo-filme-da-branca-de-neve-da-disney-esta-deixando-quase-todo-mundo-revoltado/

https://disneyplusbrasil.com.br/as-5-maiores-mudancas-no-live-action-branca-de-neve-em-relacao-a-animacao-original/

http://mpcvfx.com/

https://cinepop.com.br/branca-de-neve-orcamento-ultrapassa-os-us-250-milhoes-revela-disney-615384/