Nesta série de posts, eu vou falar sobre os filmes indicados ao Oscar, que acontece no domingo, dia 15 de março, e escolhi começar pelo nosso representante, que tem grandes chances de trazer um segundo Oscar para o Brasil. O filme estreou em maio de 2025 no Festival de Cannes, onde já ganhou os prêmios de Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho (o que já colocou o longa no radar internacional). De lá para cá, vem ganhando cada vez mais atenção e prêmios, incluindo Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards e no Globo de Ouro. Ele está indicado a quatro categorias no Oscar: Melhor Filme Internacional, Melhor Ator, Melhor Filme e Melhor Direção de Elenco (categoria nova na premiação).
Escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, o longa conta a história de Marcelo, um professor universitário em fuga em plena tensão política no Brasil, em 1977. Na trama, Marcelo volta a Recife, sua cidade natal, sob o nome de Armando, com o objetivo de buscar seu filho e sair do Brasil. Ao longo do filme, o enredo nos permite conhecer mais sobre a história dele e de outras pessoas perseguidas pelo governo ou, no caso de Marcelo, empresários envolvidos com política, além de incorporar crenças da época na região de Recife.
Muita cultura e história brasileira e um grande elenco
Uma coisa que eu gostei muito é como esse filme retrata o jeitinho e o imaginário brasileiro. O principal exemplo disso é a perna cabeluda, que de fato “existiu”, uma lenda urbana que surgiu para justificar a grande quantidade de pessoas agredidas e mortas naquele período, e que ajuda a traduzir o clima de medo que atravessa a história. O filme também mostra o carnaval pernambucano, criando um grande contraste entre momentos de festa e euforia e momentos de tensão e perseguição.
Para mim, Wagner Moura foi, sim, excepcional no seu papel, entregando nuances e camadas para o personagem. Mas o filme não se sustenta só nele: outras duas atrizes brilharam muito. A primeira delas foi Maria Fernanda Cândido, como Elza, que estava ajudando o personagem do Moura a conseguir escapar do Brasil. Eu já acompanho a carreira dessa atriz há anos e fico muito feliz de vê-la em produções brasileiras, dado que ela construiu uma carreira internacional e atualmente vive na França. Eu gostaria que ela tivesse mais tempo de tela, mas, no tempo que ela teve, ela mandou muito bem.
A segunda, e mais importante para mim, é Tânia Maria, que interpretou Dona Sebastiana e roubou todas as cenas em que estava! Diferentemente de Moura e Cândido, Tânia Maria, de 78 anos, não teve uma carreira de atriz, sendo este o seu segundo papel. O primeiro foi em Bacurau (2019), outro filme de Kleber. Eu tive a oportunidade de vê-la no painel de O Agente Secreto na CCXP em dezembro do ano passado, e foi comovente ver como ela não estava esperando ter o reconhecimento que teve, e como isso a emocionou de verdade. Dona Sebastiana é essencial para a história, carregando seriedade, mas também humor nas horas certas.

É um filme artístico, não comercial
Por mais que eu tenha adorado o filme, assim como a crítica, eu preciso ser sincera: ele não vai agradar todo mundo. É um filme “artístico”, diferente dos filmes “comerciais” que o público está acostumado a assistir. E isso aparece na recepção: conheço várias pessoas que não gostaram do filme, assim como conheço várias que gostaram.
A história é contada de forma não linear, alternando entre momentos no presente e no passado, com alguns cortes temporais. Esse tipo de estrutura pode fazer com que algumas pessoas sintam que o filme ficou incompleto, não por falta de uma conclusão, mas por cortar alguns momentos importantes da história e deixá-los subentendidos. Além disso, é um filme longo, com mais de duas horas e meia de duração, e apesar de ser um filme de perseguição, não é um filme com tanta ação assim, podendo ficar um pouco chato ou maçante para algumas pessoas.
Quais são as chances do filme no Oscar
Logo de cara, eu já achava que O Agente Secreto tinha mais chances no Oscar do que Ainda Estou Aqui (2024) por dois motivos principais: (1) na estreia em Cannes, ele ganhou os prêmios de Melhor Ator e Melhor Diretor; (2) Wagner Moura, protagonista do longa, já tem uma carreira internacional e é amplamente conhecido nos Estados Unidos. Isso importa porque o que fortalece um concorrente ao Oscar é a visibilidade, é preciso que os votantes queiram ver o filme. E mesmo com a nova regra que exige que os votantes devam assistir a todos indicados da categoria para votar, eles não são obrigados a votar em todas as categorias.
É bom lembrar também que, querendo ou não, há vieses. Um exemplo é que o filme ganhou Melhor Filme Estrangeiro no Critics Choice e no Globo de Ouro, duas das principais premiações dos Estados Unidos, mas perdeu no BAFTA, a principal premiação do Reino Unido. Quem levou o BAFTA de Melhor Filme de Língua Não Inglesa foi Valor Sentimental (2025), filme norueguês, o que demonstra um certo movimento protecionista europeu.
Eu realmente acredito que O Agente Secreto ganhe o Oscar de Melhor Filme Internacional, e há fortes chances de Wagner Moura ganhar Melhor Ator, pois, como eu disse, ele já era famoso nos EUA, por seu papel em Narcos (2015 a 2017) e mais recentemente em Ladrões de Drogas (2025). Agora, acho muito difícil que ganhe nas categorias de Melhor Filme e Melhor Direção de Elenco. Os favoritos para essas categorias são Uma Batalha Após a Outra, Pecadores e Hamnet, que são os maiores vencedores desta temporada de premiações.

Um pouco sobre a produção
O filme foi escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e foi produzido por ele em conjunto com Emilie Lesclaux, sua esposa, e Wagner Moura, protagonista. A produção brasileira contou com investimento internacional (da França, da Alemanha e da Holanda), teve um orçamento aproximado de R$ 27 milhões (cerca de US$ 5 milhões), que é considerado alto para uma produção nacional, e foi gravado entre junho e agosto de 2024 nas cidades de Recife, São Paulo e Brasília. O filme chegou às telas de cinema de mais de 90 países e soma uma bilheteria mundial de mais de R$ 50 milhões.
Uma curiosidade legal da produção é que muitas cenas foram gravadas em pontos turísticos de Recife e, durante as dez semanas de gravação, parte da cidade voltou para os anos 70, com espaços completamente caracterizados, desde as roupas até os carros utilizados em cena. Fontes apontam que cerca de 170 veículos antigos foram mobilizados para a produção, muitos deles cedidos por colecionadores e até por museus. Outra coisa interessante é que, apesar de o filme ser um roteiro original e fictício, há elementos inspirados na realidade, como a perna cabeluda, que chegou a aparecer diversas vezes na mídia da época, como jornais, rádio e televisão, mídia essa que inclusive foi usada em cenas do filme.
O filme ainda está em cartaz nos cinemas e posteriormente será lançado na Netflix (no Brasil). Eu incentivo muito que todos vão ao cinema para assistir e apoiar o audiovisual brasileiro, que está crescendo e ganhando grande visibilidade internacional, não apenas no cinema, mas também na televisão.

Rerências
https://www.oscars.org/oscars/ceremonies/2026
https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/oscar-tera-nova-categoria-em-2026-entenda
https://istoedinheiro.com.br/o-agente-secreto-bilheteria-50-milhoes
