Esse é um conteúdo um pouco diferente do que eu estou acostumada a fazer, mas voltei da SXSW, e tem alguns tópicos que foram abordados no festival que me provocaram e me inspiraram para escrever sobre. Eles foram muito enfáticos em dizer que a conversa mais importante sobre tecnologia hoje não é só sobre o que a IA consegue fazer, mas sobre o que acontece com a gente enquanto ela faz cada vez mais coisa por nós.

Eu sou Gen Z. Trabalho com marketing. Faço parte de uma equipe pequena. Uso IA praticamente todos os dias, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Uso para organizar ideias, ganhar velocidade, revisar textos, estruturar projetos, pensar referências, destravar tarefas. E, sinceramente, seria hipócrita da minha parte fingir que isso não é útil, porque é. Muito. As próprias palestras da SXSW mostraram esse cenário de forma muito concreta: profissionais de inovação, design e cultura organizacional relataram rotinas em que ChatGPT, Claude, Midjourney e outras ferramentas já fazem parte do fluxo normal de trabalho, inclusive em times pequenos e ágeis.

Mas o que mais me marcou não foi o deslumbramento com a tecnologia. Foi perceber que, em várias palestras diferentes, o assunto voltava para o mesmo ponto: a conexão humana está ficando mais valiosa justamente porque está ficando mais rara.

“Solidão Moderna”

Uma das palestras que mais me impactou foi sobre modern loneliness e conexão intencional. A provocação era dura, mas muito real: a gente vive num mundo em que tudo foi otimizado para reduzir atrito: mandar mensagem, pedir comida, chamar transporte, gerar resposta, resolver problema, preencher silêncio. Só que conexão de verdade nunca foi sem atrito. E talvez esse seja o ponto. A palestra mostrava que, quando a conexão era mais “escassa”, a intenção vinha embutida no esforço: escrever, ligar, sair de casa, procurar alguém, aparecer. Hoje, como tudo ficou instantâneo, a intenção deixou de vir no pacote e agora a gente precisa reconstruí-la conscientemente.

Os dados apresentados ali e em outras sessões foram difíceis de ignorar. Só 26% dos americanos conhecem seus vizinhos. Quase metade dos adultos abaixo dos 30 anos não sente que pertence a nenhuma comunidade. E 72% dos jovens se comunicam regularmente com chatbots, com cerca de um terço dizendo que essas interações são tão satisfatórias quanto, ou até mais, do que as humanas.

Ao mesmo tempo, em outra palestra, apareceu um panorama ainda maior sobre o que foi chamado de social health (saúde social). A ideia central era muito poderosa: saúde não deveria ser pensada só como física e mental, mas também social. Porque conexão não é um detalhe fofo da vida adulta; ela afeta bem-estar, longevidade, imunidade, cognição e qualidade de vida. Foi citado, por exemplo, que a solidão e a falta de interação regular estão associadas a até 871 mil mortes prematuras por ano, que 1 em cada 6 pessoas no mundo se sente sozinha, e que entre 5% e 14% das pessoas em alguns países se sentem sozinhas sempre ou com frequência.

E não para aí. Nos EUA, a palestra trouxe que 16% das pessoas dizem se sentir isoladas ou sozinhas o tempo todo ou na maior parte do tempo, 67% nunca participam de clubes ou organizações, e 20% só veem presencialmente as pessoas de quem gostam uma ou duas vezes por ano. Além disso, o tempo gasto participando ou organizando eventos sociais caiu em média 50% nos últimos anos. E, como alguém da Gen Z, um dado me atravessou especialmente: apenas 38% da Gen Z cresceu tendo refeições diárias em família.

Ao mesmo tempo, existe um movimento contrário acontecendo e eu achei isso muito bonito. Mesmo socializando menos, as pessoas estão procurando mais conexão. A palestra mostrou que as buscas no Google por “how to make friends” (como fazer amigos), “where to meet people” (onde pessoas se conhecem), clubes sociais e eventos comunitários atingiram máximas recentes. Ou seja: não é que as pessoas deixaram de querer vínculo. Elas continuam querendo. Talvez até mais do que antes. Elas só estão desaprendendo onde encontrar isso.

A redução de microinterações

No meu dia a dia, eu vejo exatamente essa ambiguidade. A IA realmente acelera muito. Em equipes pequenas, isso faz uma diferença enorme. Uma das sessões deu um exemplo ótimo de um processo que antes exigiria várias reuniões, alinhamentos e semanas de trabalho, mas que com IA ganhou um primeiro rascunho forte logo no início, e isso permitiu que uma instituição pequena concorresse a uma oportunidade muito maior do que conseguiria normalmente. Em outro momento, o painel mostrou como hoje dá para gerar um plano interno de comunicação em minutos a partir de documentos-base, sem precisar passar por todo o fluxo tradicional. Para quem trabalha em time enxuto, isso é muito real. A IA amplia capacidade. Ela reduz barreira de entrada. Ela faz gente pequena competir de forma mais inteligente.

Só que esse mesmo painel trouxe o outro lado, que eu achei ainda mais importante: se antes eu chamava alguém para trocar ideia, pedir opinião, revisar uma mensagem, pensar junto, hoje muitas vezes eu falo primeiro com o ChatGPT. E, quando isso acontece o tempo todo, a gente perde pequenas interações humanas que pareciam “improdutivas”, mas que na verdade estavam construindo confiança, repertório coletivo e vínculo. O painel foi muito claro nisso: confiança não nasce só de competência ou consistência; ela também depende de relacionamento positivo. Se a IA elimina várias microinterações, ela pode até aumentar produtividade, mas também pode enfraquecer colaboração e pertencimento.

Teve uma frase conceitual dessa discussão que ficou comigo: a IA reduz a fricção social, mas pode reduzir junto a fricção intelectual. Porque ferramentas como o ChatGPT tendem a afirmar, agradar, organizar, suavizar. Isso é ótimo para muitas coisas. Mas ideias melhores muitas vezes nascem do atrito certo: da discordância, da pergunta difícil, do colega que devolve outra perspectiva, da conversa que exige escuta de verdade. Sem isso, a gente pode até ficar mais eficiente, mas não necessariamente mais criativo.

Outra coisa que me chamou muita atenção foi o tema do burnout. O painel mencionou um dado em que 88% dos usuários mais avançados de IA disseram estar em burnout. Isso mexeu comigo porque traduz uma sensação que eu acho que muita gente da minha geração conhece bem: a tecnologia promete ganhar tempo, mas muitas vezes o que acontece na prática é que a régua sobe. Você não ganha descanso; você ganha mais demanda. Você não economiza energia; você só passa a produzir mais, mais rápido, com menos margem para respirar.

E tem ainda uma camada muito específica da Gen Z nessa história. A palestra sobre trabalho e IA falava sobre jovens entrando em processos seletivos mediados por IA, sendo atendidos por bots, conversando com tickets em vez de pessoas, recebendo mensagens impessoais em situações que deveriam ser profundamente humanas. Eu senti que havia ali uma espécie de luto silencioso por algo que a nossa geração talvez nem tenha vivido plenamente: um ambiente profissional em que aprender com alguém, observar alguém, pedir ajuda sem mediação, errar ao vivo e construir repertório humano junto fazia mais parte do cotidiano.

Busca por Socialização

E, ao mesmo tempo, a própria SXSW mostrou que existe uma reação a isso. Na palestra sobre saúde social, uma das ideias mais fortes era que estamos perto de um ponto de virada: conexão está deixando de ser vista como tema lateral e começando a entrar no centro da conversa cultural, de negócios e de bem-estar. A palestrante defendia que estamos vendo a saúde social sair da margem para o mainstream, com mais buscas, mais publicações, mais atenção institucional e mais inovação ao redor do tema.

Só que o mais interessante é que as soluções mais promissoras nem sempre são as mais tecnológicas. Em vários momentos apareceu a defesa de iniciativas locais, comunitárias, presenciais, “menos sexy” e mais humanas: vizinhança, grupos, encontros, gentileza, voluntariado, rituais simples, experiências em pessoa. Um dado lindo que apareceu foi de um estudo em que, após um mês praticando pequenos atos de gentileza, a proporção de pessoas que se sentiam sozinhas caiu de 1 em 10 para 1 em 20. Às vezes, a resposta não está em uma nova plataforma. Está em aparecer, ajudar, conversar, lembrar, chamar, aceitar um convite.

Talvez por isso eu tenha gostado tanto da ideia de que a Gen Z declarou 2026 como o “ano do analógico”. Pode soar quase irônico vindo de uma geração hiper digital, mas faz todo sentido. Eu sinto isso ao meu redor. Existe uma fome por presença. Por experiências reais. Por coisas que não cabem num feed. Por cinema, por parque, por museu, por jantares, por eventos, por conversas sem pressa, por sair de casa sem transformar tudo em conteúdo.

Uma mudança de estratégia de mercado

Como alguém que trabalha com marketing, isso me faz pensar muito no que as marcas vão precisar entender daqui para frente. Não basta estar só no digital. Não basta automatizar tudo. Não basta falar sobre comunidade sem criar contextos reais de pertencimento. Se conexão virou ativo escasso, ela também virou diferencial estratégico. E isso vale para comunicação, para cultura de marca, para experiência, para produto, para eventos, para liderança. Vale até para a forma como um time pequeno trabalha por dentro.

Como alguém que usa IA todos os dias, eu saí da SXSW menos interessada em perguntar “como fazer mais com IA?” e mais interessada em perguntar:

o que vale a pena preservar enquanto a IA acelera tudo?
que tipo de fricção a gente não deveria eliminar?
que tipo de vínculo a gente não pode terceirizar?
que parte do trabalho continua sendo profundamente humana e, talvez justamente por isso, ainda mais valiosa?

Porque, no fim, eu não acho que a resposta seja rejeitar a tecnologia.
Eu acho que a resposta é usá-la sem abrir mão daquilo que faz a gente continuar humano.

E talvez o maior insight que eu trouxe da SXSW seja esse:
no meio de tanta automação, escala, eficiência e conveniência, a próxima grande vantagem competitiva pode ser justamente saber criar presença, confiança, vínculo e histórias que façam as pessoas sentirem que existe alguém real do outro lado.