Se nos últimos dois textos eu falei sobre conexão humana e sobre como usar IA sem perder a essência, aqui eu quero mudar um pouco o foco. Quero olhar para a IA especificamente no audiovisual e para como ela está, ao mesmo tempo, democratizando produção e transformando a lógica da indústria. Porque esse foi outro tema que apareceu bastante na SXSW, e o mais interessante é que ele tem dois lados acontecendo simultaneamente, em direções que parecem opostas mas que, no fundo, apontam para o mesmo lugar.
O lado das produções independentes
Do lado das produções pequenas, a IA está abrindo portas que antes simplesmente não existiam. Coisas que eram muito caras ou completamente inviáveis estão ficando acessíveis de um jeito que ainda parece surreal quando você para para pensar. Um exemplo simples que apareceu nas palestras: um drone shot. Antes, isso envolvia equipamento, equipe, logística, autorização, um orçamento que a maioria das produções independentes não tem. Agora existem ferramentas de geração de vídeo que conseguem simular esse tipo de cena com uma fração desse custo. O mesmo vale para cenários: com uma tela verde e IA, você consegue criar praticamente qualquer ambiente. Claro, ainda não é perfeito, e muita gente da indústria está inclusive tentando reduzir o uso de chroma key e voltar para locações reais por uma questão de estética e autenticidade. Mas do ponto de vista de acesso, a mudança é enorme.
E aqui vale um ponto importante que ficou claro nas palestras: a IA não substitui a equipe de edição. Muito pelo contrário. Quando você monta um cenário em chroma key com auxílio de IA e não tem uma equipe de edição trabalhando em cima disso depois, fica nítido que é falso. A IA ainda tem dificuldades reais com profundidade de campo, luz e sombra, e são os editores que resolvem isso na pós-produção. A tecnologia remove barreiras de entrada, mas o olhar humano continua sendo indispensável para fazer aquilo funcionar de verdade. O mesmo raciocínio vale para animação, que antes exigia equipes grandes e budgets altos para sair do papel, e agora consegue ser viabilizada com muito mais agilidade, mas ainda depende de profissionais para fazer a entrega final ter qualidade.
Só que, em meio a tudo isso, uma coisa foi muito enfatizada nas palestras e que eu achei importante não deixar passar: o roteiro continua sendo humano. A história, os personagens, as emoções, tudo isso ainda parte das pessoas. E provavelmente vai continuar partindo.
Onde a IA ainda tem limite
Apesar de todo esse avanço, também ficou claro que existem desafios técnicos que ainda não foram totalmente resolvidos. Um dos mais concretos apareceu num exemplo de produção de um curta de animação cujo protagonista era um peixe no fundo do oceano. O desafio era manter a consistência das características desse personagem ao longo dos prompts: pequenas alterações de forma, expressão e proporção que iam aparecendo de um frame para o outro e quebrando a continuidade da narrativa. Vale dizer que isso se aplica ao contexto de animação, não de produções com atores reais, que continuam sendo filmadas da forma tradicional. Mas no universo da animação gerada por IA, manter a identidade de um personagem ao longo de uma história ainda é um dos maiores obstáculos práticos.
Fora isso, a IA já está sendo usada com bastante força em outras partes do processo, como composição de trilha sonora, organização de workflow, automação de tarefas repetitivas e apoio em edição e pós-produção. Ela entra muito mais como aceleradora de processo do que como substituta criativa. E, pelo menos por enquanto, parece que é esse o papel dela.
O lado dos grandes estúdios
Do outro lado da equação, o que mais me chamou atenção foi ver como os grandes estúdios estão usando IA de forma muito estratégica. Assisti a um painel com Dan Scharf, da Amazon MGM Studios, e o ponto principal era bem direto: IA está sendo usada para reduzir custo, mas não com o objetivo de cortar e sim de viabilizar mais produção. A ideia é que, reduzindo custo operacional, eles consigam produzir mais séries e filmes, testar mais ideias e cancelar menos projetos no meio do caminho. Usar eficiência para aumentar volume e diversidade de conteúdo, não para encolher.
E não para por aí. Em outro painel, Matt Strauss, presidente da Universal, mostrou como a IA também está transformando a experiência de quem assiste, com novos recursos previstos para o Peacock, o serviço de streaming da NBCUniversal que por enquanto ainda não está disponível no Brasil. Ele falou sobre a criação de um feed de vídeos curtos verticais dentro da plataforma, personalizado com base no histórico de cada usuário, com um sistema que comporta mais de 500 bilhões de combinações possíveis de conteúdo. Falou também sobre o lançamento do AI Andy Cohen, uma versão virtual do apresentador que interage com o público dentro do streaming. E talvez o exemplo mais curioso de todos: eles estão começando a gamificar transmissões esportivas, com a ideia de que assistir a um jogo fique mais próximo de um videogame, com nome dos jogadores em tempo real, tracking da bola e pontuação destacada no momento da jogada. A IA não está só mudando como o conteúdo é feito, mas como ele é consumido e vivido por quem está do outro lado da tela.
Não é sobre substituir, mas sim sobre expandir
O que eu mais gostei de ver foi que, nos dois extremos, produção independente e grande estúdio, a lógica parece ser parecida. A IA não está sendo usada para substituir o audiovisual tradicional, mas para expandir o que é possível dentro dele. Para quem está começando, ela reduz barreiras. Para quem já é grande, ela aumenta escala e abre espaço para experimentação. Mas, em ambos os casos, a base continua sendo a mesma: história, direção, emoção, visão criativa. A tecnologia muda o “como”. O “por quê”, contar histórias que conectam, continua sendo humano.
