Eu sinto que todo ano tem um filme meio “aleatório” que é indicado a Melhor Filme. Em 2025, foi Nickel Boys; em 2024, foi Anatomy of a Fall; e, este ano, foi Train Dreams (Sonhos de Trem). Não me entenda mal, não acho nenhum desses filmes ruim, são apenas filmes que não tiveram tanta publicidade em relação aos seus concorrentes. De todos os 10 filmes indicados a categoria, esse foi aquele de que mal se falou entre o público aqui no Brasil. Tenho convicção de que ele só recebeu atenção porque o diretor de fotografia do filme era brasileiro, Adolpho Veloso, e foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia. Mesmo assim, conheço pouquíssimas pessoas que, de fato, assistiram ao filme.
O Oscar já foi, e o filme não ganhou nenhuma das quatro categorias em que foi indicado. Mesmo assim, eu quero dar a atenção que ele merece e não recebeu!
O filme é uma adaptação do livro homônimo de 2011 e conta a história da vida de um lenhador. A trama se passa no estado de Washington na primeira metade do século XX. Não tem grandes reviravoltas, não é uma história de superação, não tem um grande enredo, mostra apenas a vida de Robert, que nunca foi favorecido pela vida e luta desde a infância para conseguir sobreviver, ter um trabalho, construir uma família e seguir em frente. Não é um filme para impressionar, mas sim para emocionar e fazer refletir. É um filme sobre como, se nós deixarmos, ao invés de levar a vida, a vida nos leva, e como, se a gente demora para fazer escolhas, a vida faz essas escolhas por você.

É um filme para se EMOCIONAR
Como mencionei, não é um filme tradicional: não tem um herói, não tem um enredo surpreendente, mas é um filme que trata de assuntos muito mais profundos. Fala muito sobre solidão, luto, trabalho, memória, masculinidade, azar e ainda faz uma crítica sobre natureza versus indústria. É uma história para quem quer refletir, não é para passar o tempo nem esvaziar a cabeça.
Para conseguir transmitir tanta coisa em apenas uma hora e quarenta minutos, eu preciso destacar a atuação de Joel Edgerton, que interpreta o protagonista. Por se tratar de um filme que trabalha muito com silêncios, o ator tinha a missão de transmitir muito apenas com expressões faciais ou gestos corporais, e ele fez isso maravilhosamente bem. É possível observar a dor, a raiva, a felicidade, o tédio e a tristeza de Robert, e até a transição entre esses sentimentos com mudanças sutis no rosto dele. Como, por exemplo, as microexpressões faciais da Fernanda Torres na cena da sorveteria em Ainda Estou Aqui, mas praticamente no filme inteiro. Some-se a isso o fato de haver grandes passagens de tempo no filme; então, além de conseguir transmitir as emoções em si, Edgerton também transmite muito bem a idade de seu personagem em cada cena e a dor acumulada que vem com ela.
Ainda sobre o elenco, gostaria de enfatizar a personagem de Felicity Jones, que, apesar de não ter tanto tempo de tela quanto eu gostaria, soube fazer um ótimo uso do tempo que teve, e sua personagem é essencial para a jornada de Robert. Apesar de aparecer em cenas pontuais, ela contribui imensamente para a narrativa sobre masculinidade e para a construção da memória e do luto, temas centrais da trama.
A fotografia realmente é excepcional
Não estou querendo puxar sardinha só porque o diretor de fotografia é brasileiro, até porque, quando vi o filme, não sabia disso. Estou falando isso porque, com trinta segundos de filme, eu já fiquei impressionada! Para explicar melhor, vou atribuir essa fotografia deslumbrante, que, na minha opinião, deveria ter ganhado o Oscar (apesar de eu ter ficado feliz com a vitória de Autumn Arkapaw por Pecadores, que foi a primeira mulher a vencer essa categoria na história, mas isso é assunto para um outro texto), a três fatores.
Primeiro, o roteiro. Eu li o roteiro do filme e posso dizer que o texto em si já é muito descritivo sobre o posicionamento das câmeras e a paisagem que deve aparecer nas cenas. Eu não posso dizer que sou uma expert em roteiros, mas, de todos os roteiros que eu já li, esse com certeza foi o mais detalhado nesse sentido.
Segundo, as locações. O filme foi gravado quase que exclusivamente ao ar livre, em madeireiras de verdade e em funcionamento, em florestas e campos do próprio estado de Washington. Até mesmo a cabana em que o protagonista mora foi construída em um campo de verdade, ao invés de um estúdio. Isso significa que eles tiveram que lidar com o clima e com a iluminação naturais o tempo inteiro, o que, na minha opinião, agrega muito na qualidade e na narrativa do filme.
Terceiro, o diretor de fotografia, claro. O posicionamento das câmeras e a iluminação contribuem imensamente para a construção de uma cena e da história como um todo. Por exemplo: se há uma discussão entre dois personagens e, quando aparece um deles, o ângulo da câmera é de cima para baixo, e, quando aparece o outro, o ângulo é de baixo para cima, isso simboliza uma relação de poder. Se as câmeras estão no mesmo nível da cabeça de ambos, significa que eles são iguais. E, raramente, essa é uma escolha exclusiva do diretor, mas sim uma decisão em conjunto com o diretor de fotografia. E, sinceramente, eu senti que todas as câmeras desse longa foram posicionadas com intenção.
Para mim, o filme já vale ser assistido só pela fotografia!

Outras áreas técnicas também merecem destaque
Esse longa é muito técnico, e seria injusto da minha parte só ressaltar a fotografia. Por trabalhar com muitos silêncios, a produção conta com muitos ruídos da natureza e música para trazer o peso emocional que as cenas pedem. Por isso, a equipe de som e a trilha sonora estão realmente de parabéns: não deixam a desejar em momento algum, seja apenas com o barulho do grilo, da chuva ou do vento nas árvores, seja na música que vem depois do silêncio durante o incêndio.
Outras equipes que tiveram um trabalho excepcional foram a direção de arte e a montagem, responsáveis pelos cenários. Pois, apesar de usarem locações reais, eles tiveram que ambientar todos esses locais para os anos de 1910 a 1940, e construir uma cabana que, apesar de ser apenas para as filmagens, ficasse no meio de uma clareira e suportasse o clima chuvoso do local.
Resumindo: mesmo que o filme fosse vazio e sem enredo, eu ainda acho que valeria a pena assistir exclusivamente por suas características técnicas.
Um pouco mais sobre a produção
Foi escrito por Greg Kwedar, roteirista e diretor de Sing Sing (2023), e Clint Bentley, que também dirigiu o filme, sendo esta a estreia dele na direção de um longa-metragem. É uma produção independente das produtoras Black Bear e Kamala Films, com um orçamento estimado de US$ 10 milhões. O projeto foi anunciado em fevereiro de 2024, mas Kwedar afirmou estar trabalhando no roteiro há mais de uma década. O filme foi gravado integralmente em abril de 2025 e lançado em janeiro de 2025 no Festival de Sundance, onde teve seus direitos de distribuição comprados pela Netflix.
Para as gravações das árvores sendo derrubadas, a equipe de montagem construiu algumas árvores artificiais para preservar a natureza. E, para as cenas em que árvores reais foram cortadas, houve uma equipe madeireira envolvida, e foram cortadas apenas árvores que já estavam programadas para derrubada. Além disso, para a cena do incêndio, eles usaram uma área que tinha sofrido um incêndio previamente, o que reduziu a necessidade de efeitos computadorizados.
Apesar de ter perdido o Oscar, Adolpho Veloso ganhou o Critics Choice Awards de Melhor Fotografia. O longa, como um todo, teve inúmeras indicações e vitórias em diversos prêmios.
O filme está disponível na Netflix, e eu incentivo todo mundo a vê-lo!

Referências
https://www.netflix.com/tudum/features/train-dreams-novella-film-adaptation
https://www.thewrap.com/train-dreams-acquired-netflix-joel-edgerton
https://www.imdb.com/title/tt29768334/
