O filme indicado a 10 categorias no Oscar tem 3 horas e 35 minutos, com direito a 15 minutos de intervalo na sessão do cinema, e a pergunta que fica é: vale a pena? Votantes do Oscar — anônimos — admitiram em entrevistas com revistas e jornais americanos não terem assistido até o final. E sim, confesso que exigiu um certo esforço para eu prestar atenção até o final. Na minha sessão, houve pessoas que saíram no intervalo e não voltaram, então não vou dizer que é um filme fácil de assistir.
A história gira em torno de Lászlo Tóth (Adrien Brody), arquiteto judeu que foge de sua cidade natal, Budapeste, Hungria — Europa pós-guerra — para os Estados Unidos, tentando reconstruir sua vida. O filme passa por várias fases da vida dele a partir do momento em que chega aos EUA: o desafio de se adaptar, morar na rua, um projeto que ele faz em parceria com Harrison Lee Van Buren (Guy Pearce), milionário americano ambicioso que Tóth vê como um meio para continuar trabalhando com arquitetura fora de seu país, as dificuldades para conseguir trazer sua esposa Erzsébet (Felicity Jones) e sua sobrinha Zsófia (Raffey Cassidy) da Europa em meio ao caos deixado pela Segunda Guerra, até alcançar uma idade avançada e se tornar um arquiteto reconhecido.

Pontos positivos
Primeiro de tudo, não tem como não falar do Adrien Brody — ele simplesmente entregou tudo para essa personagem. O trabalho dele está fantástico e merece cada prêmio que ganhou. O roteiro seria um presente para qualquer ator, uma oportunidade incrível de realmente se sobressair, e Brody abraçou essa oportunidade com garras e dentes. Dá para entregar uma performance incrível com um roteiro ruim, assim como dá para fazer um filme muito bom com performances medianas, mas conseguir juntar um roteiro maravilhoso com uma performance extraordinária é uma combinação pouco comum. Também não posso deixar de mencionar Felicity Jones e Guy Pearce, que também arrasaram e, inclusive, estão concorrendo ao Oscar.
A trilha sonora do filme também é sensacional. Em diversos momentos, eu fiquei arrepiada, muito mais por causa da trilha sonora do que pela imagem em si. Apesar de ter me decepcionado um pouquinho no final devido a um pequeno desvio da estrutura que vinha sendo utilizada ao longo do filme — gerando, pelo menos para mim, uma quebra de expectativa —, de qualquer forma ela não deixa de ser incrível e impactante. Junto à trilha sonora, a fotografia estava excepcional. Não necessariamente linda, ou pelo menos não de acordo com os critérios de beleza tradicionais, mas que 100% transmitia a mensagem que o filme queria passar.
A história do filme também é muito boa, bastante original. O protagonista tem muitas faces, com uma personalidade um tanto complicada, mas muito interessante de acompanhar. Definitivamente, um protagonista que foge dos padrões esperados. A narrativa, em quase todos os momentos, se limita a contar aquilo que é necessário — dado que o filme é sobre Lászlo e, especificamente, sobre sua carreira. Praticamente todas as cenas de alguma forma impactam sua trajetória profissional, enquanto qualquer informação que não impacte diretamente sua carreira não é aprofundada, salvo alguns diálogos com a esposa e a sobrinha. Os cortes temporais são feitos em momentos que há mudanças significativas no seu trabalho, especialmente no projeto com o Sr. Van Buren.

Pontos negativos
Com certeza, o maior defeito do filme é que ele é muito longo! Mesmo com o intervalo de 15 minutos, ainda é um desafio assistir até o fim. Não é um filme fluido, como por exemplo Wicked, que passa as duas horas e quarenta minutos com muita leveza. O filme tem muita informação, diálogos em húngaro, gritaria em alguns momentos, silêncios em outros, de modo que, se você não estiver focado na tela, não acompanha o que está acontecendo.
Como mencionado antes, a trilha sonora gera uma quebra de expectativa no final. A melodia se repete várias vezes ao longo do filme, sempre ficando mais alta e mais intensa, e o esperado no clímax seria que ela atingisse seu ápice — mas isso não acontece, o que me decepcionou bastante.
Outra questão é que, embora a maioria das cenas estejam ligadas à carreira de Tóth, algumas não estão, e acabam ficando um pouco jogadas, sem muito desenvolvimento — como algumas discussões familiares ou tentativas de aprofundar um pouco outros personagens que não têm impacto direto na narrativa principal. Não são cenas objetivamente ruins, mas poderiam ter sido cortadas para tornar o filme mais curto, ou melhor, “menos longo”— ou, já que o filme já é tão longo, poderiam ter sido mais bem desenvolvidas.

Vale a pena assistir?
Sim! Definitivamente, é um filme incrível, com uma narrativa maravilhosa — você não vai se arrepender de assistir. Mas ele não é um daqueles top filmes que todos deveriam ver uma vez na vida. No final do dia, é um filme para quem realmente gosta de cinema e assiste muitos filmes. Se você não tem o costume de assistir filmes ou não tem muito tempo, há outros filmes que eu indicaria mais. Por outro lado, o filme foi feito para ter um intervalo, sendo claramente dividido em Parte 1, Parte 2 e Epílogo, então você pode assisti-lo em duas partes.
Acima de tudo, é um filme incômodo. Os visuais nem sempre são agradáveis, há falas preconceituosas (xenofóbicas ou de intolerância religiosa) e o protagonista está longe de ser um exemplo a ser seguido. Apesar de tudo, Tóth não se faz de coitado em nenhum momento, mesmo não sendo o mocinho que esperamos ver.
Resumindo, é um filme que eu gostei, mas não tenho vontade de assistir de novo. Recomendo, mas não como prioridade — apenas para quem tem o tempo e a paciência para assisti-lo. Sobretudo, recomendo pela atuação do Brody, que está extraordinária.
Um pouco sobre a produção
Dirigido por Brady Corbet e escrito por ele em conjunto com sua esposa Mona Fastvold, o filme foi uma coprodução entre Estados Unidos, Reino Unido e Hungria. Feito de forma independente, com um orçamento de menos de US$10 milhões, foi apenas distribuído pela A24 nos EUA e pela Universal Pictures em outros países. Gravado majoritariamente na Hungria e algumas cenas na Itália entre março e abril de 2023, a produção utilizou a câmera Vistavision, que possui uma angulação maior e faz a gravação parecer mais antiga.
Além disso, uma questão que gerou polêmica foi o uso de inteligência artificial (IA) na pós-produção. Corbet esclareceu que a IA foi usada apenas para melhorar o húngaro falado por Brody e Jones — que, apesar das aulas, ainda tinham sotaque notável — e para deixar o filme mais autêntico. A técnica não é inédita no cinema, mas foi a primeira vez que ela é feita usando IA, tornando o processo mais rápido e barato, fator especialmente importante para um filme de baixo orçamento. A voz que você ouve no filme ainda é completamente dos atores, apenas com alguns retoques.
Referências
https://datebook.sfchronicle.com/movies-tv/brady-corbet-the-brutalist-20003517?utm_
