Protagonizado por Timothée Chalamet, o filme se passa em 1950 e conta a história de Marty Mouser, um jogador de tênis de mesa talentoso e muito ambicioso, determinado a alcançar seus objetivos, custe o que custar. O grande objetivo de Marty é se tornar campeão mundial de tênis de mesa, esporte que estava crescendo muito rapidamente na Ásia, mas ainda era pouco valorizado nos EUA. Apesar disso, o filme deixa o tênis de mesa em segundo plano: o foco acaba sendo muito mais no que Marty está disposto a fazer para chegar lá do que nas suas competências como jogador.
Não é sobre tênis de mesa, mas isso é algo bom
Geralmente, eu não costumo ver trailers dos filmes e raramente sei a sinopse. Costumo ir bem às cegas, sem expectativas, não sabendo nada muito além do elenco e da direção, no máximo em que ano se passa ou se é baseado em fatos reais. Marty Supreme não seguiu essa regra: tive a oportunidade de assistir ao painel do filme na CCXP25 com Timothée Chalamet e Josh Safdie, roteirista e diretor, e lá assisti não apenas ao trailer do filme, mas também a algumas outras cenas mostradas em primeira mão e ainda soube de curiosidades da produção. Tudo isso fez com que eu criasse expectativas, que foram frustradas. Não porque o filme é ruim, de modo algum, mas porque eu esperava que fosse muito mais sobre um atleta que, contra todas as probabilidades, alcança seus objetivos com foco e talento, quando, na verdade, é sobre um jovem arrogante, com uma ética questionável, disposto a fazer qualquer coisa para conseguir o que quer e, de alguma forma, provar o seu valor.
Se, por um lado, Marty é de fato excepcional como atleta de tênis de mesa, um esporte subvalorizado nos Estados Unidos na época, e sabe que as oportunidades não vão bater na sua porta, por outro ele se mostra muito cheio de si, autocentrado e sem respeito pelos outros, tudo isso girando em torno do problema mais comum de todos: a falta de dinheiro. A narrativa gira em torno dessa determinação e da crença inabalável de que, se ele conseguir dinheiro suficiente, vai conseguir realizar seu sonho.
A melhor expressão que eu consigo pensar para descrever o enredo é “eita atrás de vixe”: todas as formas, quase sempre ilegais, que ele arranja para ganhar dinheiro sempre têm uma consequência, e seus momentos de glória duram muito menos do que seus momentos de luta. Apesar de um protagonista quase detestável, o filme é caótico e divertido, com momentos de tensão e dúvida, e com um final fora do clichê.

Timothée Chalamet está excepcional
Esse é definitivamente o melhor trabalho que Chalamet já fez até o momento. Ele tem um currículo extenso, ainda mais considerando sua idade, e está claro que é um grande ator, tanto que foi indicado ao Oscar no ano passado por sua interpretação de Bob Dylan em Um Completo Desconhecido (2024). Mas, diferente desse último, em que, apesar de eu ter achado impressionante ele ter aprendido a tocar gaita e violão e a cantar como o próprio Bob Dylan para o papel, eu não achei que aquele filme conseguiu mostrar, de fato, todo o seu alcance como ator.
Em Marty Supreme, por outro lado, mesmo com ele tendo aprendido a jogar tênis de mesa (ou, pelo menos, melhorado suas habilidades), ele conseguiu mostrar muito mais sua capacidade de atuação. Interpretar Marty permitiu que ele usasse todo o espectro de emoções e comportamentos, em um personagem realmente complexo e multifacetado. Para mim, essa é uma das melhores coisas que pode acontecer com um ator.
O retorno de Gwyneth Paltrow às telas
Gwyneth Paltrow, amplamente conhecida por seu papel como Pepper Potts nos filmes da Marvel, ficou afastada das telas de cinema desde 2018, com o filme Vingadores: Ultimato, por ter perdido o encantamento pelo trabalho nos últimos tempos. E isso faz um paralelo fantástico com sua personagem, Kay Stone, que também é uma atriz que parou de atuar por motivos semelhantes aos de Paltrow e volta depois de anos. No caso de Paltrow, ela aceitou o papel por se identificar com a personagem, além de o roteiro trazer novamente o brilho para seus olhos. Já para Stone, sua volta aos palcos aconteceu após conhecer Marty e se inspirar na paixão dele pelo tênis de mesa. Eu acho que esse contexto traz muito mais beleza e significado para a personagem, e acho que a atriz conseguiu desenvolver uma dinâmica muito interessante e necessária com o protagonista.

Um pouco sobre a produção
O longa foi produzido, dirigido e escrito por Josh Safdie, sendo esta sua primeira produção sem a codireção de seu irmão. Outros produtores do filme foram Ronald Bronstein, que também participou como roteirista, Eli Bush, que também produziu Ex Machina (2014), Lady Bird (2017) e Aniquilação (2018), Anthony Katagas, que produziu 12 Anos de Escravidão (2013), Os 7 de Chicago (2020) e Amsterdam (2022), e o próprio Timothée Chalamet. As principais produtoras envolvidas foram A24 e Central Pictures, com um orçamento de US$ 70 milhões. As filmagens ocorreram entre setembro e dezembro de 2024, no estado de Nova York, e em fevereiro de 2025, no Japão, mas o desenvolvimento do roteiro começou bem antes, por volta de 2018, quando Safdie começou a pesquisar sobre Marty Reisman, jogador que serviu de inspiração para a história.
O design de produção ficou por conta de Jack Fisk, que trabalhou em Assassinos da Lua das Flores (2023) e O Regresso (2015). Para Marty Supreme, ele fez questão de construir ruas inteiras de Nova York dos anos 1950 para garantir que não houvesse interferências modernas nas filmagens, e até mesmo um posto de gasolina funcional no meio da estrada, integralmente com a estética de 1950.
Outra curiosidade é que, para ser o mais realista possível, Safdie fez questão de que Chalamet usasse óculos com 10 graus de verdade, para causar o efeito de “olho esbugalhado”. Como Chalamet não tem problemas de visão na vida real e não conseguia enxergar nada com os óculos, foi necessário que, além dos óculos, o ator usasse uma lente de contato de -10 graus para compesar o grau dos óculos.
Uma marca registrada do Josh Safdie é que ele gosta de usar pessoas “reais” ao invés de atores. Então, muitas das pessoas que aparecem no filme, não apenas figurantes, mas personagens com falas, como alguns dos jogadores de tênis de mesa, empresários e funcionários em estabelecimentos, não eram atores profissionais, mas sim pessoas que estavam, de certa forma, interpretando a si mesmas.
Até o momento, o filme já arrecadou uma bilheteria de mais de US$ 150 milhões, tornando-se um dos filmes de maior bilheteria produzidos pela A24. Conta com nove indicações ao Oscar, sendo Timothée Chalamet um dos favoritos na categoria de Melhor Ator. Ao todo, o filme soma 268 indicações e 36 vitórias.

Referências
https://www.imdb.com/title/tt32916440/
https://www.boxofficemojo.com/title/tt32916440.htm
https://www.the-numbers.com/movie/Marty-Supreme-(2025)
https://www.oscars.org/oscars/ceremonies/2026
https://www.vanityfair.com/hollywood/story/marty-supreme-cameos-josh-safdie-explains
https://www.curbed.com/article/marty-supreme-production-design-new-york-locations-photos.html
https://decider.com/2025/12/24/watch-marty-supreme-movie-streaming-netflix-hbo-max-amazon-prime/
